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Abordagem ao Bubishi

Abordagem ao Bubishi

Onix escreve “BUBISHI ( Wu Peh Chih em Chinês ) – A “Bíblia” do Karate

O Bubishi é considerado um tesouro, de uma grande riqueza no conhecimento marcial…

e os oitos preceitos que nele constam são para muitos Mestres (especialmente das escolas com origem em Naha-te) a essência das Artes Marciais.

Em 1621, Mao Yuen Yi publicou um trabalho sobre tácticas militares composto por duzentos e quarenta capítulos com noventa e um volumes cada, intitulado Wu Pei Chih, com detalhes de aspectos militares e incluía uma secção sobre métodos de “mão vazia/nua”. Os aspectos técnicos do trabalho são baseados em métodos chineses da Garça Branca ( Hakutsuru ) – Província de Fukien.

Apesar do desconhecimento do autor, o Bubishi ( Okinawa Bubishi ) foi criado a partir de conhecimentos práticos de combate, escrito na antiga língua chinesa ‘ Wenyan’, e é composto por trinta e dois capítulos que além de nos fornecerem dados sobre a história do Boxe da Garça Branca “White Crane Boxing” nos descrevem ainda as importantes observações do Mestre Wang Yo Teng sobre ataques aos pontos vitais, informação sobre meridianos , plantas medicinais e a sua composição e utilização, comentários de Sun Tzu’s retirados do seu livro “A Arte da Guerra”, códigos éticos marciais, técnicas de combate de mão vazia, as quarenta e oito técnicas de Quan, “Dim Mak” ou toque mortal, entre outros aspectos.

Se traduzirmos à letra, a palavra Bubishi significa Bu ( militar ), Bi ( preparação), Shi (registo) e podemos assim defini-la como “manual de preparação militar “, tradução que, na nossa opinião, “castra” a importância do documento, cujo desenvolvimento veio a partir das técnicas do Kempo Chinês do estilo Garça Branca, influenciando muito o Karaté de Okinawa. Apesar do desconhecimento do autor, o Bubishi foi criado com certeza a partir de conhecimentos práticos de combate.

Um mestre de karate de Okinawa que é conhecido por ter estudado o Bubishi é Nakaima Kemi ( 1819 -1879 ). Ele foi o fundador do estilo ou escola Ryuei-Ryu de Naha-te. Nakaima viajou para a China por forma a estudar com o Mestre LiuKung ou Xie Zhong Xiang ( Mestre de Higashionna ) estudante de Fang Chi Niang, que foi o fundador da arte Garça Branca. Diz-se que quando regressou da China para Okinawa, onde era conhecido por Ryuru Ko ( Honorável Mestre), trouxe uma cópia do documento Bubishi.

O Bubishi foi certamente desenvolvido por grandes Mestres chineses e após ter sido trazido ou escrito em Okinawa foi dado a “conhecer” ao Mundo Ocidental. Existem muitas teorias acerca do seu aparecimento na ilha de Okinawa. Uma delas sugere que Itosu Anku ( 1832 – 1915 ) foi uma das fontes que contribuíram para difundir o documento, sendo ele responsável pelo desenvolvimento das tradições de lutas de auto defesa que mais tarde acabaram por se tornar estilos ( Shuri Te e Naha Te ).

Seu mestre lendário, “Bushi” Matsumura Chikudun Pechin Sokon ( 1809 – 1901 ), tinha estudado Kung-Fu em Fuzhou e Beijing e poderia ter sido muito bem a fonte de transmissão do Bubishi pela primeira vez em Okinawa. Diversos Mestres escreveram versões do documento que admitem ter sido copiado de uma outra cópia anterior. A titulo de exemplo poderemos referenciar os Mestres Kenwa Mabuni ( fundador do Shito-Ryu), Gichin Funakoshi (Fundador do Shotokan ), e o Gogen Yamaguchi ( fundador da linha japonesa de Goju-kai).

No interior do documento encontramos um capítulo com o nome ” 48 técnicas de Quan “, com ilustrações de dois lutadores aplicando técnicas, sempre acompanhadas por um texto em forma de poema, descrevendo a acção dos lutadores. Dadas as ilustrações do documento é possível encontrar muitas dessas técnicas nos kata tradicionais de Okinawa e é provável que tenham utilizado o Bubishi para aperfeiçoar e refinar as técnicas contidas nos kata ou até mesmo para corrigir erros de transmissão.

Na secção do documento sobre os quarenta e oito métodos de boxe chinês é interessante verificar as diversas aplicações e técnicas que ainda actualmente são transmitidas nos vários Dojos e diversos estilos de Okinawa. O que é curioso referenciar das ilustrações e textos do documento, é o facto de não se verificarem nenhumas defesas contra armas, e assim sendo, a ideia de que o desenvolvimento do Karate em Okinawa está directamente ligado à necessidade de defesa contra a repressão dos Samurais Japoneses é posta em causa por algumas pessoas.
Se a teoria tivesse muito fundamento seria de esperar ilustrações e textos com referências a defesas contra katanas ou outro tipo de armas.

De qualquer forma, estas perguntas e respostas, ainda necessitam de muita análise e pesquisa, apesar das ilustrações nos darem uma boa “imagem” do tode ( mão da China ) praticado em Okinawa eventualmente há dois séculos ou mais.

Entre os vários capítulos existentes o mais confuso e menos prático, chegando mesmo a poder considerar-se perigoso e irresponsável o seu uso devido à falta de conhecimento sobre os elementos apresentados, é o capitulo da medicina tradicional chinesa. Documenta um conjunto vasto de ervas e suas aplicações bem como pontos de acupunctura, descrevendo o Homem de Bronze e seus trinta e seis pontos vitais, modelo do corpo humano indicando os meridianos, que foi mandado construir pelo Imperador Ren Zong a um oficial de medicina imperial Wang Wei na época de 1026 D.C.

Foram inicialmente elaborados dois modelos , o homem de bronze mostrava precisamente os pontos do meridiano em relação aos órgãos internos. Este desenvolvimento foi um marco para a medicina dado que até ao final da dinastia Song, todas as representações anatómicas eram feitas a duas dimensões.
No final de mil anos de prática de acupunctura, muitos pontos desnecessários foram descobertos. Verificou-se que “agulhando” estes locais, as piores doenças podiam ser curadas e em certos pontos poderiam causar morte imediata. O Mestre Zhang Sanfeng ( 1270 D.C.) perito na arte marcial Daoist ( Templo de Shaolin em Henan ) e perito de acupunctura, registou e desenvolveu os resultados das suas “análises”, tornando-se numa das referencias mais importantes sobre esta matéria.

Ao atingir um dos trinta e seis pontos vitais pode ocorrer : morte, paralisia, inconsciência e problemas respiratórios. Um homem pode ser magoado se levemente atingido ou uma pancada forte pode ser fatal. Dos trinta e seis pontos vitais, vinte e dois são na parte frontal e catorze são nas costas. Existem cinco meios de atacar os pontos vitais : cortando ( usando a quina da mão ) , pressionando (usando a ponta dos dedos ), espalmando (usando a palma da mão ), batendo ( usando a mão), apertando (usando os dedos para agarrar).

Se o pontos vitais foram atacados em conjunto com a teoria do fluxo sanguíneo, então um trauma para um pequeno ponto vital magoará a pessoa, e um trauma em um grande ponto vital matará a pessoa. A complexa teoria do fluxo sanguíneo é dividida em doze iguais períodos e os pontos vitais são localizados ao longo desses doze canais.

Interessantes técnicas chamadas ” O diagrama de doze horas do toque mortal “, ilustram técnicas utilizadas simultaneamente que provocariam a morte do adversário após um dia(s), semana(s), mese(s) e até mesmo ano(s) depois do combate. Isto deve-se a um estudo minucioso do fluxo sanguíneo no corpo humano e do seu comportamento durante doze horas do dia.

Algumas autoridades reclamam que o Bubishi foi escrito durante a Dinastia Ch’ing ( 1644-1912 ) e que o Mestre Kanryo Higashionna ( 1851- 1916 ) ou Mestre Chojun Miyagi ( 1888- 1953 ) o introduziram em Okinawa, tendo-o trazido, ou pelo menos excertos, entre as várias visitas de estudo à China.

O primeiro capitulo do livro intitulado as ” Origens do Boxe da Garça Branca ” informa-nos que o estilo foi fundado por uma Mulher, Feng Chi Niang, que modificou o sistema ensinado pelo seu Pai , Feng Shih Yu de Fukien. Neste capitulo encontram-se os elementos básicos que “auxiliaram” Mestre Chojun Miyagi a criar os katas Sanchin ( Samchien em Chinês – exercício de desenvolvimento respiratório) e Tensho, harmonizando assim a essência do estilo GO / duro( sanchin que se traduz por três “san” batalhas “chin” ) e JU / flexível ( tensho que se traduz por “mãos correntes” )..

É interessante verificar que o documento engloba uma versão do kata Sanchin, a qual é prática fundamental dos estilos de Naha-te ( Goju-Ryu e Uechi-Ryu ). Uma forma mais antiga de sanchin é a fundação do estilo de Fujen Quan Fa, baseado na concepção do desenvolvimento da energia interna vital ( Ki ou Chi ) através da execução de movimentos e posturas sincronizadas com a respiração.

Existe uma lenda de que o Mestre Zeng Lishu treinou durante três anos sanchin ( Paipuren ) e tornou-se um Mestre Invencível.

Para os mestres antigos, a referencia à arte marcial que em Okinawa deu origem ao karaté, na última transição de século, sempre foi o Homem em si mesmo e circunstancialmente, o Homem em oposição a adversários. Vejamos os ” oito preceitos da arte de combate ” ( Kenpô taiyô hakku ) que se encontram no Bubishi.

O nome Goju-Ryu atribuído por Chojun Miyagi à sua Arte teve origem na terceira linha do poema escrito intitulado :

BUBISHI”

1. Jinshi wa tenchi ni onaji. The mind is one with heaven and earth / a mente é una com o céu e a terra.
2. Ketsumyaku wa nichigetsu ni nitari. The circulatory rhythm of the body mimicks the cycle of the sun and the moon / o ritmo circulatório do corpo é similar ao circulo do sol e da lua.
3. Ho wa goju wo donto su. The way of inhaling and exhaling is hardness and softness / a forma de inspirar e expirar é dura e flexível. 
4. Mi wa toki ni shitagai hen ni ozu. Act in accordance with time and change / actuar em concordância com o tempo e a mudança.
5. Te wa ku ni unwachi hairu. Techniques will occur in the absence of conscious thought / técnicas ocorrem na ausência de pensamentos conscientes. 
6. Shintai wa hakarite riho su. The feet must advance and retreat, separate and meet / os pés devem avançar e regredir, separadamente e juntos. 
7. Me wa shiho wo miru wo yosu. The eyes do not miss even the slightest change / os olhos não perdem mesmo a minima mudança.
8. Mimi wa yoku happo wo kiku. The ears listen well in all directions / os ouvidos ouvem bem em todas as direcções.