Inscreve-te! Ligue-nos
938 374 146
Rua Nova de Sonhos, 61 4445-416 Ermesinde

Zen e as Artes Marciais

Os ideogramas de “Budô”, que costumam ser erroneamente traduzidos como “Arte Marcial”, têm pouco a ver com Marte. Sua sintonia maior é com Athena, deusa guerreira grega da sabedoria, artes e justiça.

Na Wikipédia, num artigo sobre Ares (o Deus Grego que deu origem ao Deus Romano Marte) lemos que “entre os Gregos sempre houve desconfiança com Ares. Embora sua meia irmã Athena também fosse uma deidade da guerra, a posição dela era a favor de uma guerra estratégica, enquanto Ares tendia para a violência imprevisível da luta.”

Os dois ideogramas da palavra “Bu-dô” juntos significam “o caminho” (dô) de “deter a violência” (bu). O ideograma “bu” representa duas lanças cruzadas e uma pessoa sentada com a palma da mão levantada fazendo o sinal “pare”. Transmite a ideia de “parar com as lutas”. O ideograma “dô” significa “caminho espiritual”.

Algumas pessoas questionam a associação do Budô com o Zen Budismo, embora, de acordo com a tradição, tanto um como o outro já estavam vinculados ao Primeiro Ancestral Mestre Bodhidarma, no Templo Shaolin, na China antiga.

O Budismo nunca pregou à violência – sempre pregou as consequências cármicas de todos os nossos actos. A aproximação dos Samurais japoneses com o Zen deu-se principalmente depois a unificação do Japão, com o início da era Tokugawa, ou Período de Edo (1603-1867) – uma longa era de paz. Os Samurais, antes guerreiros, passaram a ser polícias e burocratas, e agora com condições de cultivar a espiritualidade e o carácter, as técnicas marciais (Bu-Jutsu) transformaram-se em Artes Marciais (Bu-dô), Caminho Marcial, Caminhos Espirituais. Mais ainda, um templo budista acolhe-os  a todos, sem qualquer tipo de discriminação, na esperança de transmitir os ensinamentos budistas, e também levar a Paz e a Tranquilidade a todos. Assim, os Monges receberam os Samurais Japoneses na antiguidade, da mesma forma que hoje em dia recebem polícias e militares, juntamente com profissionais de quaisquer outras áreas – sem discriminação.

Os ensinamentos do Budô buscam o cultivo da ‘espada que dá vida’ – a força interior que permite ‘vencer’ um conflito sem a necessidade de luta ou violência. Em tal situação, não há ‘vencedor’, nem ‘derrotado’, e a harmonia é restabelecida. No treino Zen Budista, na Cerimónia de Combate do Darma, é usada uma espada simbólica e, quando o Mestre pergunta: ‘Porque vai usar essa espada?’, o aluno responde: ‘para dar vida!’

O Budismo reconhece a necessidade de firmeza e de força interior. Muitas da imagens da iconografia Budista mostram figuras carregando espadas – a espada que dá vida, que corta as desilusões. O próprio Buda histórico era mestre de Artes Marciais na sua época, e a sua força interior é claramente demonstrada na história do seu confronto com o elefante enlouquecido. No livro Velho Caminho, Nuvens Brancas, lemos:

“[…] estavam a mendigar na capital, quando Venerável Ananda percebeu que um elefante estava a correr na direcção deles. Aparentemente havia escapado dos estábulos reais. Ananda reconheceu-o como sendo o elefante chamado Nalagiri, famoso por seu comportamento violento. O monge não podia entender como o tratador real o tinha deixado fugir. Tomadas de pânico, as pessoas corriam em busca de refúgio. O elefante levantou sua tromba, ergueu a cauda e as orelhas e dirigiu-se directamente para onde estava o Buda. Ananda agarrou-o pelo braço tentando levá-lo para um lugar seguro, mas ele não se deixou arrastar. Ficou calmamente ali, de pé, imperturbável. Alguns bhikkhus agacharam-se por trás do Gautama enquanto outros fugiram. As pessoas gritavam para o Buda salvar a sua vida. Ananda prendeu a respiração e ia colocar seu corpo à frente, entre Nalagiri e o Buda. Naquele exacto momento, para a surpresa de Ananda, o Buda soltou um majestoso urro estridente. Era o som da Rainha Elefanta cuja amizade ele conquistara muito tempo antes, na Floresta de Rakita, em Parileiaka.

Nalagiri estava a poucos metros do Mestre quando ouviu aquele som retumbante e, subitamente, parou a sua investida. O poderoso elefante ajoelhou-se com as suas quatro patas, abaixando a cabeça até o chão como se fizesse uma prostração para o Buda. Gentilmente, ele afagou a cabeça do animal, e, então, segurando a tromba com uma das mãos, levou a obediente Nalagiri de volta aos estábulos reais.” (p. 402)

Seguem palavras do fundador do Aikido, o Mestre Morihei Ueshiba:

“Eu senti como se o universo de repente tremesse e um espírito dourado saiu da terra, envolveu o meu corpo e o transformou num corpo dourado.

Ao mesmo tempo minha alma e meu corpo se tornaram luz. Eu pude entender o murmúrio dos pássaros e estava claramente consciente do espírito de Deus, o Criador do universo.

Naquele momento eu recebi iluminação: a fonte das artes marciais é amor divino – o espírito da protecção do amor para todos os seres. Lágrimas de alegria ilimitadas fluíram pela minha face.

Depois disso eu senti como se o mundo inteiro fosse a minha casa e o sol, a lua e as estrelas me pertencessem. Eu fiquei livre de todos os desejos, não apenas de prestígio, fama e posses, mas também do desejo de ser forte. Eu compreendi que arte marcial não é derrotar um oponente pela força…. O treino de Artes Marciais é para receber o amor de Deus, que é o que cria, protege e nutre tudo na natureza, e torná-lo próprio – pratique isto na  própria alma e corpo.”

Mestre Ueshiba (“O-Sensei”) era praticante da seita xintoísta Oomoto e do Budismo Shingon, e desenvolveu uma profunda compreensão do Darma – As Leis Universais.

É impossível evitar os conflitos neste mundo. Não podemos simplesmente nos deitar no chão e fazermos de capachos para as pessoas violentas. Tão pouco podemos simplesmente permitir que as nossas crianças sejam abusadas ou as casas roubadas. Temos que nos saber defender. Temos que ter consciência e saber administrar a nossa própria força. Temos que saber proteger os mais fracos. Temos que tentar fazer isto da forma menos violenta possível, sem raiva e com compaixão no coração. Para erguer a “espada que dá vida”, temos que purificar o coração de todos os venenos – nos libertar dos apegos, aversões e ignorâncias. Isto é a nossa prática.